Em uma reunião recente com um incorporador, enquanto eu explicava os benefícios técnicos da automação predial — eficiência energética, redução de custos operacionais, gestão preventiva, valorização do ativo — ouvi a seguinte resposta:
“Mas nos nossos prédios não precisa disso. Temos um zelador que fica andando pelo condomínio com seu caderno e vai anotando os problemas.”
Confesso: ali estava sintetizado, em uma única frase, um dos maiores desafios da automação na construção civil brasileira.
Não é uma questão tecnológica.
É uma questão cultural.
O problema não é o zelador
Antes de qualquer coisa, vamos deixar claro: o zelador é uma figura fundamental no condomínio. Experiência prática, conhecimento empírico do edifício, relacionamento com moradores — tudo isso tem valor.
O problema não é o zelador.
O problema é achar que o caderno substitui um sistema.
Porque o caderno é reativo.
A tecnologia é preditiva.
O caderno registra o que já deu errado.
A automação identifica o que está prestes a dar errado.
E essa diferença muda completamente a equação operacional do edifício.
O prédio mudou. A gestão nem sempre.
Os edifícios residenciais atuais já não são estruturas simples:
- Bombas com inversor de frequência
- Sistemas de pressurização e climatização
- Geradores
- Iluminação LED com drivers eletrônicos
- Portarias remotas
- CFTV IP digital
- Controle de acesso integrado
- Infraestrutura para carregamento de veículos elétricos
Funciona?
Talvez.
É eficiente?
Definitivamente não.
A falsa economia
Quando a tecnologia é descartada na fase de projeto, a justificativa costuma ser custo.
Mas o incorporador raramente faz a conta completa.
Automação predial em edifícios residenciais pode gerar:
- Redução de consumo energético em áreas comuns
- Operação otimizada de bombas e sistemas hidráulicos
- Monitoramento remoto de falhas
- Histórico técnico estruturado
- Redução de chamadas emergenciais
- Maior previsibilidade de manutenção
E menor OPEX significa maior atratividade comercial.
Hoje o comprador compara taxa condominial antes de fechar negócio. Ele não está comprando apenas um apartamento — está comprando um custo mensal projetado para os próximos 10, 20 anos.
O diferencial competitivo que não aparece na maquete
Automação não é item decorativo.
Não aparece no stand de vendas como uma varanda gourmet.
Mas influencia diretamente:
- Valorização patrimonial
- Percepção de modernidade
- Sustentabilidade
- Certificações ambientais
- Governança condominial
E a pergunta que começa a surgir é simples:
O prédio está pronto para o futuro — ou já nasceu antigo?
O caderno como símbolo
O “zelador com o caderno” é quase uma metáfora perfeita.
Ele representa:
- A gestão baseada na inspeção visual
- A ausência de dados estruturados
- A dependência de memória individual
- A dificuldade de rastreabilidade
- A inexistência de indicadores de desempenho
Em um cenário de eficiência energética, ESG e racionalização operacional, isso se torna um ponto de vulnerabilidade.
Se o zelador sair, o histórico sai junto.
Se a informação está no papel, ela não gera inteligência.
O que realmente está em jogo
Não estamos falando apenas de conforto ou sofisticação.
Estamos falando de:
- Engenharia de operação
- Gestão de ativos
- Inteligência predial
- Performance ao longo do ciclo de vida
O mercado mais avançado já pensa no lifecycle cost.
E essa é uma mudança inevitável.
Uma provocação necessária
Se o argumento é que “sempre foi assim”, vale uma reflexão simples:
Se aplicássemos a mesma lógica a outras áreas, ainda estaríamos:
- Controlando acesso com livro de visitas manuscrito
- Operando elevadores manualmente
- Usando lâmpadas incandescentes
- Administrando vendas sem CRM
Conclusão: tecnologia não substitui pessoas. Amplifica.
A automação não elimina o zelador.
Ela dá ferramentas para que ele seja mais eficiente.
- Em vez de andar pelo condomínio procurando problemas, ele recebe alertas estruturados.
- Em vez de anotar falhas, ele analisa indicadores.
- Em vez de reagir, ele previne.
Talvez o verdadeiro diferencial competitivo não esteja na fachada.
Deve estar na sala técnica.
E definitivamente não cabe dentro de um caderno.
