O Zelador, o Caderno e o Prédio do Século XXI

Por José Roberto Muratori

Em uma reunião recente com um incorporador, enquanto eu explicava os benefícios técnicos da automação predial — eficiência energética, redução de custos operacionais, gestão preventiva, valorização do ativo — ouvi a seguinte resposta:

“Mas nos nossos prédios não precisa disso. Temos um zelador que fica andando pelo condomínio com seu caderno e vai anotando os problemas.”

Confesso: ali estava sintetizado, em uma única frase, um dos maiores desafios da automação na construção civil brasileira.

Não é uma questão tecnológica.
É uma questão cultural.
O problema não é o zelador

Antes de qualquer coisa, vamos deixar claro: o zelador é uma figura fundamental no condomínio. Experiência prática, conhecimento empírico do edifício, relacionamento com moradores — tudo isso tem valor.

O problema não é o zelador.
O problema é achar que o caderno substitui um sistema.

Porque o caderno é reativo.
A tecnologia é preditiva.

O caderno registra o que já deu errado.
A automação identifica o que está prestes a dar errado.

E essa diferença muda completamente a equação operacional do edifício.
O prédio mudou. A gestão nem sempre.

Os edifícios residenciais atuais já não são estruturas simples:
  • Bombas com inversor de frequência
  • Sistemas de pressurização e climatização
  • Geradores
  • Iluminação LED com drivers eletrônicos
  • Portarias remotas
  • CFTV IP digital
  • Controle de acesso integrado
  • Infraestrutura para carregamento de veículos elétricos
Estamos falando de sistemas eletroeletrônicos complexos. Gerenciá-los “no giro” — caminhando pelos andares com um caderno — é como administrar um data center desligando e ligando equipamentos manualmente.

Funciona?
Talvez.

É eficiente?
Definitivamente não.

A falsa economia

Quando a tecnologia é descartada na fase de projeto, a justificativa costuma ser custo.
Mas o incorporador raramente faz a conta completa.
Automação predial em edifícios residenciais pode gerar:
  • Redução de consumo energético em áreas comuns
  • Operação otimizada de bombas e sistemas hidráulicos
  • Monitoramento remoto de falhas
  • Histórico técnico estruturado
  • Redução de chamadas emergenciais
  • Maior previsibilidade de manutenção
Isso significa menor OPEX para o condomínio.

E menor OPEX significa maior atratividade comercial.

Hoje o comprador compara taxa condominial antes de fechar negócio. Ele não está comprando apenas um apartamento — está comprando um custo mensal projetado para os próximos 10, 20 anos.

O diferencial competitivo que não aparece na maquete

Automação não é item decorativo.
Não aparece no stand de vendas como uma varanda gourmet.

Mas influencia diretamente:
  • Valorização patrimonial
  • Percepção de modernidade
  • Sustentabilidade
  • Certificações ambientais
  • Governança condominial
Em mercados mais maduros, edifícios sem infraestrutura tecnológica já nascem defasados.

E a pergunta que começa a surgir é simples:

O prédio está pronto para o futuro — ou já nasceu antigo?

O caderno como símbolo

O “zelador com o caderno” é quase uma metáfora perfeita.

Ele representa:

  • A gestão baseada na inspeção visual
  • A ausência de dados estruturados
  • A dependência de memória individual
  • A dificuldade de rastreabilidade
  • A inexistência de indicadores de desempenho

Em um cenário de eficiência energética, ESG e racionalização operacional, isso se torna um ponto de vulnerabilidade.

Se o zelador sair, o histórico sai junto.

Se a informação está no papel, ela não gera inteligência.

O que realmente está em jogo

Não estamos falando apenas de conforto ou sofisticação.

Estamos falando de:
  • Engenharia de operação
  • Gestão de ativos
  • Inteligência predial
  • Performance ao longo do ciclo de vida
A incorporação tradicional ainda pensa muito no CAPEX da obra.
O mercado mais avançado já pensa no lifecycle cost.

E essa é uma mudança inevitável.
Uma provocação necessária

Se o argumento é que “sempre foi assim”, vale uma reflexão simples:

Se aplicássemos a mesma lógica a outras áreas, ainda estaríamos:
  • Controlando acesso com livro de visitas manuscrito
  • Operando elevadores manualmente
  • Usando lâmpadas incandescentes
  • Administrando vendas sem CRM
A construção civil evoluiu em materiais, métodos construtivos, modelagem BIM, industrialização. Mas, em muitos casos, a operação predial ainda está presa ao papel.

Conclusão: tecnologia não substitui pessoas. Amplifica.

A automação não elimina o zelador.

Ela dá ferramentas para que ele seja mais eficiente.
  • Em vez de andar pelo condomínio procurando problemas, ele recebe alertas estruturados.
  • Em vez de anotar falhas, ele analisa indicadores.
  • Em vez de reagir, ele previne.
E o incorporador deixa de vender apenas metragem quadrada — passa a vender inteligência operacional.

Talvez o verdadeiro diferencial competitivo não esteja na fachada.

Deve estar na sala técnica.

E definitivamente não cabe dentro de um caderno.

Como a tecnologia pode reduzir os custos de um condomínio


A pressão constante sobre as taxas condominiais tem levado síndicos e administradoras a buscarem soluções mais eficientes para equilibrar orçamento, qualidade de serviços e valorização do patrimônio. Nesse contexto, a tecnologia tem se consolidado como uma aliada estratégica na redução de custos operacionais e no aumento da eficiência da gestão condominial, conforme aponta reportagem recente do O Estado de S. Paulo.

Um dos principais vetores dessa transformação é a automação de processos e serviços. Sistemas de controle de acesso digital, como portarias remotas e leitores biométricos ou por reconhecimento facial, permitem reduzir despesas com mão de obra presencial sem comprometer a segurança. Além da economia direta, esses sistemas geram registros e relatórios que facilitam auditorias e a gestão de ocorrências.

Outro ponto relevante é o uso inteligente de energia e recursos. Tecnologias de monitoramento em tempo real do consumo elétrico e hídrico possibilitam identificar desperdícios, vazamentos e picos de consumo, permitindo ações corretivas rápidas. A automação de iluminação e sistemas de climatização em áreas comuns, com sensores de presença e controle por horários, também contribui significativamente para a redução das contas mensais, um aspecto ressaltado na análise do jornal.

A digitalização da gestão condominial é outro fator de impacto direto nos custos. Plataformas online substituem processos manuais, reduzem gastos com papel, correio e retrabalho administrativo, além de melhorar a comunicação com os moradores. Aplicativos de gestão permitem a realização de assembleias virtuais, votações eletrônicas e acompanhamento financeiro em tempo real, diminuindo despesas operacionais e aumentando a transparência.

A tecnologia também atua de forma preventiva por meio da manutenção preditiva. Sensores e sistemas de monitoramento em elevadores, bombas, portões e outros equipamentos críticos permitem antecipar falhas antes que se tornem problemas graves e onerosos. Essa abordagem reduz custos emergenciais, prolonga a vida útil dos equipamentos e evita interrupções nos serviços do condomínio.

Por fim, é importante destacar que a adoção tecnológica não deve ser vista apenas como um custo inicial, mas como um investimento com retorno mensurável. A experiência relatada na reportagem do Estadão demonstra que condomínios que adotam soluções tecnológicas de forma planejada conseguem não apenas reduzir despesas recorrentes, mas também aumentar a atratividade e a valorização do imóvel no médio e longo prazo.

Em um cenário de orçamentos cada vez mais pressionados, a tecnologia deixa de ser um diferencial e passa a ser um elemento essencial para uma gestão condominial eficiente, sustentável e financeiramente equilibrada.

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Os Empreendimentos Multiuso e a Automação como Infraestrutura Essencial

 

Os empreendimentos imobiliários multiuso — que integram moradia, hospedagem, comércio e serviços em um único condomínio — representam uma resposta direta às novas dinâmicas urbanas, ao adensamento das cidades e à busca por eficiência operacional e melhor experiência do usuário. No entanto, essa complexidade funcional impõe desafios técnicos e operacionais que tornam o uso de sistemas de automação, controle de acesso inteligente e conectividade de alta performance praticamente obrigatório para a viabilidade, segurança e competitividade desses projetos.

A complexidade operacional dos empreendimentos multiuso

Diferentemente de condomínios residenciais ou edifícios comerciais tradicionais, os empreendimentos multiuso operam com perfis de usuários distintos, fluxos variáveis e níveis de acesso dinâmicos. Moradores permanentes, hóspedes temporários, prestadores de serviço, clientes de áreas comerciais e equipes operacionais coexistem no mesmo ambiente físico, exigindo:

  • Segmentação precisa de acessos
  • Gestão inteligente de circulação
  • Operação contínua, 24/7
  • Alta confiabilidade dos sistemas prediais

Sem automação e sistemas digitais integrados, a operação tende a se tornar onerosa, ineficiente e vulnerável a falhas de segurança.

Automação predial como base de governança do ativo

A automação predial deixa de ser um diferencial tecnológico e passa a atuar como infraestrutura de governança do empreendimento. Sistemas integrados de iluminação, climatização, elevadores, energia, água e segurança permitem:

  • Operação diferenciada por uso (residencial, hotelaria, serviços)
  • Redução de custos operacionais e energéticos
  • Monitoramento contínuo e manutenção preditiva
  • Adequação a requisitos de ESG e sustentabilidade

Em empreendimentos multiuso, a automação é o elemento que permite tratar múltiplos modelos de operação dentro de uma mesma edificação de forma organizada e escalável.

Controle de acesso inteligente: segurança e experiência do usuário

O controle de acesso é um dos pilares críticos desses projetos. Tecnologias como credenciais digitais, biometria, QR Codes, integração com sistemas hoteleiros e aplicativos de condomínio permitem:

  • Diferenciar acessos por perfil, tempo e área
  • Automatizar check-in e check-out de hóspedes
  • Integrar estacionamento, elevadores e áreas comuns
  • Aumentar a segurança sem comprometer a experiência

Em um ambiente multiuso, segurança e fluidez precisam coexistir, algo praticamente inviável com soluções convencionais e não integradas.

Conectividade de alta performance como infraestrutura estratégica

A conectividade deixa de ser um serviço acessório e passa a ser infraestrutura crítica do empreendimento. Redes robustas, redundantes e bem projetadas são fundamentais para suportar:

  • Sistemas de automação e IoT
  • Aplicações de segurança e vídeo
  • Serviços digitais para moradores e hóspedes
  • Operações comerciais e corporativas
  • Integração com plataformas em nuvem e analytics

Sem conectividade de alta performance, a automação perde eficiência e o empreendimento compromete sua proposta de valor no médio e longo prazo.

Valorização imobiliária e competitividade de mercado

Do ponto de vista do investidor e do incorporador, empreendimentos multiuso tecnologicamente preparados apresentam:

  • Maior atratividade para diferentes perfis de usuários
  • Valorização do ativo ao longo do tempo
  • Flexibilidade para mudanças de uso futuro
  • Redução de riscos operacionais

A automação e as tecnologias digitais tornam-se, portanto, fatores estruturais de mitigação de risco e de aumento da vida útil do empreendimento.

Conclusão

Nos empreendimentos multiuso contemporâneos, a automação predial, o controle de acesso inteligente e a conectividade de alta performance não podem mais ser tratados como opcionais ou complementares. Eles constituem a base tecnológica que viabiliza a convivência de múltiplos usos, garante segurança, eficiência operacional e uma experiência adequada aos diferentes usuários. Em um mercado cada vez mais competitivo e orientado por eficiência, sustentabilidade e experiência, esses sistemas deixam de ser custo e passam a ser investimento estratégico indispensável.


 Artigo de autoria de José Roberto Muratori, do Conselho Editorial da Revista Prédio Inteligente